Por Eduardo Simões

SÃO PAULO (Reuters) – O número de mortos no Brasil com COVID-19 deve ultrapassar 500.000 no sábado, já que especialistas alertam que o segundo surto mais letal do mundo pode piorar devido ao atraso nas vacinações e à recusa do governo em apoiar medidas de distanciamento social.

Apenas 11% dos brasileiros estão totalmente vacinados e os epidemiologistas alertam que, com a chegada do inverno no hemisfério sul e a disseminação de novas variantes do coronavírus, as mortes continuarão aumentando, mesmo que as vacinações ganhem impulso.

O Brasil registrou 498.499 mortes de 17.801.462 casos confirmados de COVID-19, o maior número oficial de mortes fora dos Estados Unidos, de acordo com o Departamento de Saúde na sexta-feira. Na semana passada, houve uma média de 2.000 mortes por dia no Brasil.

COVID-19 continua a devastar países da região, com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) relatando 1,1 milhão de novos casos de COVID-19 e 31.000 mortes na América na semana passada. A OPAS registrou aumentos em seis estados mexicanos, Belize, Guatemala, Panamá e alguns locais no Caribe.

A OPAS alertou que a situação do COVID-19 é pior na Colômbia, pois os leitos nas unidades de terapia intensiva nas principais cidades estão lotados.

Os especialistas veem o pedágio no Brasil, já o mais alto da América Latina, significativamente maior.

“Acho que atingiremos 700.000 ou 800.000 mortes antes de ver os efeitos da vacinação”, disse Gonzalo Vecina, ex-chefe da agência de saúde do Brasil Anvisa, prevendo uma aceleração de curto prazo nas mortes.

“Estamos testemunhando a chegada dessas novas variantes e a variante indiana nos colocará em um loop.”

Vecina criticou a forma como o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro lidou com a pandemia, incluindo a falta de uma resposta nacional coordenada e seu ceticismo sobre vacinas, proibições e requisitos de mascaramento, que ele relaxou.

Raphael Guimarães, pesquisador do Centro Biomédico Fiocruz do Brasil, disse que os atrasos no programa de vacinação no país mais populoso da América Latina significam que seus efeitos totais não serão sentidos até setembro ou mais tarde.

Guimarães alertou que o Brasil pode revisitar cenas do pior de seu auge de março a abril, quando o país registra uma média de 3.000 mortes por dia.

“Ainda estamos em uma situação extremamente crítica, com taxas de transferência muito altas e ocupação de leitos em muitos lugares que ainda são críticos”, disse ele.

Nesta semana, os novos casos confirmados no Brasil aceleraram para uma média de mais de 70.000 por dia, o maior número anterior à Índia no mundo.

A vacinação será crucial para derrotar o vírus no Brasil, já que o país não conseguiu chegar a um consenso sobre distanciamento social e máscaras, disse Ester Sabino, epidemiologista da Universidade de São Paulo.

“Temos que aumentar a vacinação muito rápido”, disse ela.

No entanto, evidências do vizinho Chile, que, como o Brasil, tem se baseado em grande parte em uma vacina desenvolvida pela Sinovac Biotech da China, sugere que pode levar meses até que a imunização em massa efetivamente contenha a transmissão.

Quase metade dos chilenos foi vacinada, mas sua capital, Santiago, acaba de ser colocada de volta no confinamento quando os casos atingem seu pico novamente.

O Brasil precisa vacinar cerca de 80 milhões de pessoas para atingir os atuais níveis de vacinação per capita do Chile.

Isso requer um fornecimento mais consistente de vacinas e ingredientes no Brasil, que tem sido irregular nos últimos meses, uma vez que as importações da China atrasaram depois que o Bolsonaro irritou Pequim com o que foi percebido como comentários anti-chineses.

(Reportagem de Eduardo Simões; escrita de Anthony Boadle; edição de Brad Haynes e Steve Orlofsky)

By Patricia Joca

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