A morte de Diego Maradona, na última quarta-feira, em decorrência de parada cardíaca, promete render longos capítulos na Justiça argentina. O jornal “Olé” afirma que os depoimentos recolhidos nos últimos dias e o material recolhido em computadores e telemóveis indicam que existiram lacunas que podem ser apontadas como falhas no atendimento do ex-jogador no seu processo de recuperação de cirurgia cerebral.

Um dos principais problemas seria a falta de estrutura da casa para onde Maradona foi depois de receber alta, 14 dias antes de morrer. A publicação diz que uma fonte da MP aponta que houve “descontrole total e absoluto” e aponta que a residência – dentro de um condomínio fechado na região do Tigre – precisou de uma série de adaptações para poder receber o Pibe.

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Casa onde Maradona passou as últimas semanas de sua vida foi em um condomínio em San Andrés, no Tigre – Foto: Getty Images

A casa teria quatro quartos e banheiros privativos no segundo andar, que, no entanto, Maradona não conseguiu alcançar. Incapaz de subir e descer escadas, Maradona teria ficado alojado em um quarto de criança, onde um banheiro químico teria sido alocado para o uso do ás. Além disso, uma série de demandas solicitadas pela psiquiatra de Maradona, Dra. Agustina Cosachov, não teriam sido atendidas.

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O ex-camisa 10 teve alta da Clínica Olivos no dia 11 de novembro, com a alta hospitalar assinada por Cosachov e Dr. Leopoldo Luque, responsável pela cirurgia que retirou um tumor cerebral de Maradona – e que foi nomeado médico particular do argentino nos Estados Unidos . Últimos tempos. O documento também teria as assinaturas das filhas Dalma e Gianinna.

Na ocasião, o hospital teria indicado que Maradona seria transferido para uma clínica de reabilitação, já que o astro usava muitos remédios e estaria abstinente devido ao uso de bebidas alcoólicas. O ex-jogador, no entanto, teria se oposto à internação voluntária e a família não queria forçá-lo. O psiquiatra, então, teria sugerido “atendimento domiciliar”, fazendo uma série de indicações estruturais para isso.

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É neste ponto que se encontram as brechas que o Ministério Público de San Isidro investigaria e poderia transformar alguns dos envolvidos em acusados ​​de homicídio culposo. As três filhas de Maradona (Jana, Gianina e Dalma) citaram “promessas quebradas” em seus depoimentos, segundo “Olé”.

O jornal cita que a maioria dos requisitos indicados pela psiquiatra Agustina Cosachov não foi cumprida. Em carta à empresa Swiss Medical – contratada para cuidar de Maradona em sua recuperação -, Cosachov teria pedido “enfermeiras, de preferência homens, com disponibilidade em tempo integral e especializadas em problemas de uso de substâncias”, além de um neurologista e outro clínico acessível. Também teria pedido ambulância e possibilidade de fazer exames constantemente.

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“Olé” conta que nas duas semanas em que fez tratamento em casa, Maradona não fez nenhum exame, nem mesmo de sangue, e que nenhum remédio para o coração foi encontrado na casa onde estava. Além disso, não havia equipamento de oxigênio e desfibrilador no local.

Neurocirurgião no foco das investigações

Leopoldo Luque, responsável pela cirurgia do cérebro de Maradona, despontou como grande alvo de críticas dos torcedores e investigado pelo MP. O médico foi ao tribunal e ofereceu-se para testemunhar, mas não pode fazê-lo porque ainda não foi convocado. Ele deu entrevista coletiva para se defender no último fim de semana e assumiu que não era exatamente o médico responsável pela saúde de Maradona, já que ele é neurologista.

O deputado investiga qual era a relação profissional de Luque com Maradona e se os cuidados gerais de saúde do ex-jogador eram da sua responsabilidade. As filhas de Maradona teriam indicado que Luque era o “médico de cabeceira do pai”, quem tinha a última palavra nas decisões e comandava o tratamento, sem que nada fosse feito sem a sua aprovação.

Policiais em frente à residência do médico Leopoldo Luque durante investigação sobre a morte de Maradona, Adrogue, província de Buenos Aires, Argentina – Foto: Lara SARTOR / TELAM / AFP

A imprensa argentina trouxe imagens de conversas que teriam sido filtradas de um grupo do Whatsapp com as filhas de Maradona, Leopoldo Luque, Agustin Cosachov e o psicólogo Carlos Díaz. Os diálogos, que estariam nas mãos da Justiça, apontam para um debate sobre a contratação de um clínico geral para se responsabilizar pelos cuidados de Maradona durante o processo de recuperação da cirurgia, com observação intensiva na casa em que se encontrava.

Nas mensagens, Dalma Maradona diz que foi informada de que seu pai vomitou depois de comer camarão com alho e brócolis e se recusou a chamar uma ambulância para uma reforma geral. A psiquiatra Agustina Cosachov, então, teria recomendado que Diego passasse nos testes, mas que a decisão era familiar. A filha de Maradona então diz aos irmãos que talvez seja necessário contratar um médico para tomar essas decisões.

– Acho que há coisas que nós familiares não podemos decidir, e isso seria um médico clínico ou pelo menos o seu médico, que responderá por ele – escreve Dalma.

As crianças teriam concluído que era uma ideia positiva contratar um médico fixo para se responsabilizar pelo tratamento de Maradona, impedindo tantos profissionais de estarem perto de seu pai. Isso gerou dúvidas sobre se o neurocirurgião era o médico responsável pelas decisões envolvendo Pibe.

Luque e Maradona ainda na Clínica de Olivos antes da alta do jogador – Foto: Reprodução / Instagram

Alvo prioritário da Justiça, a ponto de ter computadores e celulares apreendidos, Leopoldo Luque se defendeu dizendo que era um homem mais confiável do que o médico responsável por Maradona. E ressaltou como é difícil atender aos desejos do ex-jogador.

– Como ele confiava em mim, o que eu fiz foi levá-lo ao clínico, ao oftalmologista, para ir ao dentista. Porque se eu não estivesse lá, ele não se moveria. Mas entenda que ele era um paciente difícil e que estava lúcido. Nada foi feito sem a vontade de Diego – explicou Luque.

O advogado de Maradona, Matías Morla – que foi o primeiro a levantar a hipótese de negligência na morte do craque – saiu em defesa de Luque, em post nas redes sociais. Morla destacou que ele foi testemunha da dedicação do médico a Diego.

– Eu entendo o trabalho do MP, mas só eu sei, doutor Luque, o que o senhor fez pela saúde do Diego, como cuidou dele, o acompanhou e como ele o amou. Diego amava você e, como amigo, não vou deixá-lo sozinho. Você deixou sangue, suor e lágrimas, e a verdade sempre triunfa – escreveu ele.

O Clarín lembra que a enfermeira Dahiana Madrid relatou que Maradona, uma semana antes de morrer, caiu em casa e bateu com a cabeça. E que, na época, nenhum dos profissionais levou o ex-jogador ao hospital para fazer uma tomografia. Os familiares, no entanto, negaram a versão, indicando que a enfermeira “não relatou uma fala” sobre o suposto acidente.

By Patricia Joca

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